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Já passava da meia-noite, o sono a aproximar-se. Pausei a leitura para programar o temporizador da TV, que estava a tocar no Spotify. Ainda a dormitar, consegui identificar os primeiros acordes de Take Five, uma composição de Paul Desmond apresentada pelo Dave Brubeck Quartet no álbum Time Out, de 1959. De pálpebras fechadas, arrisquei adormecer antes de ouvir o solo de bateria de Joe Morello. Senti o livro que estava a ler escorregar-me da mão quando ouvi claramente uma mensagem de WhatsApp. Deixei passar, mas logo chegaram mais cinco. A curiosidade era mais forte que o sono.
Estendi a mão, peguei nos óculos, introduzi a palavra-passe e fiz login.

Era a Martita, uma amiga minha de antes, com quem não falava desde uma viagem complicada que fizemos há muito tempo por Pernambuco. Martita nunca tinha falta de assunto; adorava conversar, e muito. Agora ela era telegráfica; era claro que seguia as regras das redes sociais. Depois de ler a terceira mensagem, a minha preocupação dissipou-se. Ela começou por dizer olá e foi logo para o final.

“Salve, salve, boa noite.”

“Como está?”

“Há quanto tempo?”

“Ganhei um bilhete para Buenos Aires.”

“Vou embarcar cedo hoje, com relutância!”

“Preciso de um conselho.”

“Beijos!”

“Li as mensagens, perdi o sono, mas não perdi o solo do Joe Morello!”

Ali estava eu, às primeiras horas da manhã, a pensar que conselhos poderia dar a Martita sobre Buenos Aires. Não é fácil. Como escolher alguns locais num universo tão vasto? Lembrei-me do poeta Luis García Montero, que, evocando Granada, a sua cidade natal, diz que “cada pessoa tem uma cidade que é uma paisagem urbanizada dos seus sentimentos”. Que sentimentos viriam ao de cima nesta empreitada?

Lembrei-me que no Inverno passado, numa das minhas viagens a Buenos Aires, encontrei Mario, um amigo de juventude, no London City, um notável bar da cidade inaugurado em 1954. Reza a lenda que Cortázar escreveu o romance Los Premios, publicado em 1960, nas mesas deste café, situado na esquina da Av. de Mayo com a Perú.

Apanhei o metro, Linha A – inaugurada em 1913. Confesso que fui tomado pela nostalgia dos vagões belgas La Brugeoise, recentemente substituídos pelos comboios chineses. Nada de glamour! Desci na estação do Perú.

Peguei na escada rolante e mal cheguei ao nível da rua quando fui atingido por uma rajada de ar gelado. Estava na hora de ajeitar o cachecol e avistar o meu amigo sentado confortavelmente numa das mesas na calçada. Os portenhos gostam de se sentar ao ar livre em qualquer altura do ano. Teria preferido a parte interior do bar, numa mesa não muito perto da estátua de Julio Cortázar, que atrai tantos turistas para as fotos como a do velho Drummond sentado tranquilamente na orla de Copacabana. Fica a dica: quer escolher o seu lugar? Chegue cedo!

Após o abraço e os cumprimentos obrigatórios, o amigo, talvez à procura de uma forma de meter conversa ou talvez sentindo as loucuras da idade, informou-nos que estávamos a 100 metros a leste da praça mais importante da cidade: a Plaza de Mayo. Assenti levemente e respondi: “Caro amigo, esqueceu-se de nos dizer que estamos a 150 metros da Pirâmide de Maio, construída em 1811 e reinterpretada pelas Mães e Avós da Plaza de Mayo desde 30 de Abril de 1977.”
Acedendo ao meu GPS mental, descobri que 50 metros à frente está a Casa Rosada e, atrás dela, descendo a Rua Balcarce, está o Museu do Bicentenário, inaugurado em 2011. Não perca o mural “Exercício Plástico”, do muralista mexicano David Alfaro Siqueiros, criado durante o seu exílio em Buenos Aires nos terrenos do empresário Natalio Botana. Já viu o filme argentino-mexicano “O Mural”, realizado por Hector de Oliveira em 2010? Recomendo!
O amigo que me olhava com um sorriso na cara disse: “Esqueci-me que também nasceste por aqui.” “Sim, sim! Rimos muito!”

Esta agradável recordação fez-me concluir que o café é o local ideal para iniciar um minitour pela cidade. Pronto! Há algumas novidades, e acho que a Martita vai gostar.

A primeira informação relevante é que, a partir dos cantos da praça, pode aceder a quatro das seis linhas de metro da cidade: linha A sentido oeste; linhas B e D no sentido norte (em direção a Palermo); e linhas E sentido sudoeste.
Este último, originalmente Plaza de los Virreyes – Bolívar, ganhou recentemente uma extensão para a estação ferroviária de Retiro, um centro de ligações que serve linhas que seguem para o norte da cidade, incluindo o comboio costeiro para o Delta do Tigre. A extensão conta com uma estação no antigo edifício central dos Correios, agora transformado no Centro Cultural Kirchner. Este centro cultural irá certamente mudar de nome durante o governo Milei. É claro, não é?

Não sei porque é que pensei que esta informação sobre o metro de Buenos Aires interessaria a Martita.

Lembrei-me de Mario me contar, com nostalgia, a vez em que tomámos café no Tortoni e arriscámos algumas partidas de bilhar. O Tortoni, outro bar famoso, fica a 200 metros do local onde nos encontrávamos. Mário foi perentório: “Já não vou lá. Muitos turistas, mais de metade da sua nova terra natal.” “A maioria de São Paulo”, concluí.

Ainda assim, vale a pena recomendar e avisar-nos de um alongamento no Museu do Tango, que fica mesmo ao lado. Aliás, adoro particularmente caminhar os 2 km da Avenida de Mayo que separam a Plaza de Mayo do Congresso Nacional. Era evidente que o sono tinha desaparecido, e eu estava, às primeiras horas da manhã, a vasculhar a memória para decidir um guião que agradasse a Martita. Queria pelo menos garantir um dia de descobertas.
Comecei o meu e-mail de resposta com:

Cara Martita, Senhora, repare que o meu roteiro recomenda um passeio pela Avenida de Maio, inaugurada em Julho de 1894, uma década antes do início das obras no Rio de Janeiro, executadas pelo Presidente da Câmara Pereira Passos, com recurso a picaretas, para construir a Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco. Uma rápida consulta às atas do Senado brasileiro revelará a preocupação dos senadores com a iniciativa argentina. Esta preocupação, claro, era motivada pelas oportunidades de negócio que perderiam se continuassem a focar-se no “atraso” — segundo a interpretação da época — e não no projeto de modernização que deveria atrair inúmeros investimentos estrangeiros. A Paris dos Trópicos deveria, em breve, competir com a Paris do Prata. Oui, oui!

Esta orientação persistiu nos trópicos até que Caetano anunciou, em Baby, que os tempos tinham mudado. Menos Paris, mais Nova Iorque. “Baby, precisas de aprender inglês.”

Cara Martita, vou tentar evitar rodeios. Vamos diretos ao ponto. Logo ali, no primeiro quarteirão, estão o edifício do jornal La Prensa e a Passagem Roverano, na Av. 560. Um pouco mais à frente, a Passagem Urquiza Anchorena, e um pouco mais à frente, o Palácio Barolo. Você, como especialista em Walter Benjamin, sabe que ele teria adorado esta tríade.

A arquitetura do Palácio Barolo foi inspirada na Divina Comédia de Dante; os seus 22 andares são uma referência às 22 estrofes do livro. Recomendo vivamente aproveitar a vista divina do terraço do palácio. Com sorte e muita imaginação, conseguirá distinguir o contorno do seu edifício gémeo, o Palácio Salvo, construído pelo mesmo arquiteto em Montevideu, no Uruguai, a apenas uma curta distância do Rio da Prata, que separa as duas capitais.

Caros, depois de apreciarem a vista, voltem ao ponto de partida. Passe pelo Hotel Castelar, situado na Avenida 1152. Projetado pelo mesmo arquiteto de Barolo, o italiano Mario Palanti, o hotel albergou durante muito tempo o poeta espanhol Federico García Lorca, outro ilustre granadino. David Alfaro Siqueiros, o muralista mexicano, aqui ficou alojado na década de 1930.

No regresso, atravessará a Avenida 9 de Julio, com 140 metros de largura. Respire fundo e olhe para a esquerda — voilà, o Obelisco! Olhe também para a direita e aviste o enorme edifício no meio da avenida, sede dos Ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social. Lembra-te que estás a olhar para a direita e, por favor, diz-me se a imagem de Evita Perón ainda domina o edifício ou se Milei já a fez desaparecer.

Ao chegar à esquina da London City, vire à esquerda e desça a Florida Street. No número 165, encontrará a Galería Güemes, outra passagem pedonal com 100 metros de comprimento.

Não hesite! Suba, suba, até ao miradouro localizado no 14º andar do edifício. Suba uma escada íngreme até ao último piso e terá uma vista panorâmica de 360 ​​graus da cidade à sua disposição. Vão ter de concordar comigo: tudo parece ainda mais bonito lá de cima!

Aproveitando o impulso, caminhe mais 600 metros em direção a Puerto Madero e visite o Centro Cultural Kirchner, no antigo edifício dos correios. Apanhe um dos elevadores panorâmicos até ao terraço e aprecie a vista deslumbrante do Rio da Prata. Se for quinta-feira, quando descer, imagino que, extasiado, poderá arriscar alguns passos — se o Milei não tiver proibido — na encantadora milonga que acontece lá em baixo!

Boa viagem!

Enviei este breve resumo por e-mail no momento em que ela provavelmente embarcaria. Satisfeito com o dever cumprido, fui dormir o sono dos justos.

Acordei algo angustiado. Reli as mensagens que Martita me enviara no WhatsApp e uma sensação desagradável veio-me à memória ao prestar atenção à quinta mensagem: “Vou embarcar cedo hoje, com relutância!”

Relendo “sem querer”, dei-me conta. A Martita tem medo de alturas. Ela vive no rés-do-chão, sobe escadas e odeia elevadores! Lembrei-me que na viagem que fizemos por Pernambuco, apanhar o avião foi um verdadeiro aborrecimento. Ela precisou de uma dose enorme de Alprazolam para acalmar o mal da altitude; o mal do avião; o mal da proximidade; o pânico, tudo misturado.

Imagino que ela tenha adotado hoje o mesmo procedimento de embarque. Quando ela acordar, depois de desembarcar, vai-me xingar!

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