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Carta de Vinícius de Moraes para Tom Jobim


Caro Tonzinho, estou em Paris, num hotel com sacada sobre uma praça, que dá para toda solidão do mundo e diz:
Procura-se um amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano, ter sentimento, ter coração.
Precisa saber falar e saber calar no momento certo. Sobretudo, saber ouvir.
Deve gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, do sol, da lua, do canto dos ventos e do murmúrio das brisas.
Deve sentir amor, um grande amor por alguém, ou sentir falta de não tê-lo. Deve amar o próximo e respeitar a dor alheia.
Deve guardar segredo sem sacrifício.
Não precisa ser puro, nem totalmente impuro, porém, não deve ser vulgar.

Deve ter um ideal e sentir medo de perdê-lo.
Se não for assim, deve perceber o grande vazio que isso deixa.
Precisa de ter qualidades humanas. A sua principal meta deve ser a de ser amigo.
Deve sentir piedade pelas pessoas tristes e compreender a solidão.
Que ele goste de crianças e lastime as que não, puderam nascer e as que não puderam viver.
Que goste dos mesmos gostos. Que se emocione quando for chamado de amigo.
Que saiba conversar sobre coisas simples e de recordações da infância.
Precisa-se de um amigo para se contar o que se viu de belo e triste durante o dia; das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças d’água, de beira de estrada, do cheiro da chuva e de se deitar no capim orvalhado.
Precisa-se de um amigo que diga que a vida vale a pena, não porque é bela, mas porque já se tem um amigo. Deve ter um ideal e medo de
perdê-lo.
Deve ser Don Quixote sem contudo desprezar Sancho.

Precisa-se de um amigo para se ter consciência de que ainda se vive.

Procura-se um amigo.

Não precisa ser homem, basta ser humano, ter sentimento, ter coração.

Não precisa ser puro

nem totalmente impuro, porém, não deve ser vulgar.

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